Neurologia · Esclerose Múltipla

Esclerose múltipla: sintomas, diagnóstico e tratamento

Entenda a esclerose múltipla: sintomas, diagnóstico, formas da doença e o papel da fisioterapia — para quem foi diagnosticado ou acompanha de perto alguém que foi.

Em resumo
  • A esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e tem tratamento, embora ainda não tenha cura.
  • Os primeiros sintomas variam bastante de pessoa para pessoa e podem incluir alterações de visão, formigamento, fadiga e perda de equilíbrio.
  • O diagnóstico depende de critérios clínicos específicos (critérios de McDonald), exame de ressonância magnética e, quando necessário, análise do líquido cefalorraquiano.
  • Existem quatro formas evolutivas da doença, e cada uma orienta decisões diferentes de tratamento.
  • A fisioterapia neurofuncional tem evidência científica favorável para força muscular, mobilidade e equilíbrio, e atua em conjunto com o tratamento medicamentoso.

Receber o diagnóstico de esclerose múltipla, ou acompanhar de perto o diagnóstico de alguém que você ama, costuma trazer uma mistura difícil de nomear: alívio por finalmente entender o que estava acontecendo, e medo do que vem depois. É normal que as primeiras perguntas sejam sobre o futuro, sobre quanto a vida vai mudar e sobre o que fazer a partir de agora.

Este texto foi escrito para você, familiar ou pessoa recém-diagnosticada, que está tentando entender a doença antes de tomar qualquer decisão. Buscar informação neste momento é um passo importante, e não existe pressa nem prazo para se sentir pronto.

Vamos explicar o que é a esclerose múltipla, como ela costuma se manifestar, como é feito o diagnóstico e qual o papel da fisioterapia no cuidado. As afirmações aqui seguem as diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde para esclerose múltipla.

O que acontece no corpo na esclerose múltipla?

A esclerose múltipla é uma doença autoimune do sistema nervoso central, que inclui o cérebro, a medula espinhal e os nervos ópticos. Nela, o próprio sistema imunológico ataca por engano a bainha de mielina, a camada que envolve e protege os nervos e permite que os impulsos elétricos circulem com velocidade.

Quando a mielina é danificada, em um processo chamado desmielinização, a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo fica mais lenta ou é interrompida em determinados pontos. É por isso que os sintomas dependem de qual região foi afetada, e não existe um quadro único que sirva para todos os pacientes. Uma lesão no nervo óptico causa sintomas visuais; uma lesão na medula pode causar fraqueza ou alteração de sensibilidade em um braço ou perna.

Esclerose múltipla tem cura?

Não. A esclerose múltipla ainda não tem cura, mas tem tratamento eficaz para controlar a atividade da doença. Os medicamentos imunomoduladores e imunossupressores disponíveis hoje no Brasil, pelo SUS ou pela rede particular, podem reduzir a frequência dos surtos e a formação de novas lesões. A fisioterapia, por sua vez, trabalha a função, o equilíbrio e a autonomia, sem prometer reverter danos já instalados. Não é possível prever com exatidão como a doença vai evoluir em cada pessoa, e qualquer estimativa de prazo ou de resultado deve ser tratada com cautela.

Quais são os primeiros sintomas da esclerose múltipla?

Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, o que torna o diagnóstico mais demorado em muitos casos. Os mais frequentes são:

  • perda ou embaçamento da visão em um dos olhos, muitas vezes acompanhada de dor ao mover o olho;
  • formigamento, dormência ou sensação de choque em braços, pernas ou tronco;
  • fadiga desproporcional ao esforço realizado;
  • perda de equilíbrio, tontura ou sensação de instabilidade ao caminhar;
  • fraqueza em um braço ou uma perna;
  • dificuldade de concentração ou de memória de curto prazo.

Nenhum desses sintomas, isoladamente, confirma o diagnóstico. A confirmação depende da avaliação de um neurologista, que vai considerar o conjunto do quadro clínico junto aos exames de imagem.

Como é feito o diagnóstico de esclerose múltipla?

O diagnóstico segue os critérios internacionais de McDonald, adotados pela Academia Brasileira de Neurologia. Esses critérios exigem a comprovação de que as lesões no sistema nervoso central aconteceram em momentos diferentes (dispersão temporal) e em locais diferentes (dispersão espacial), o que costuma ser demonstrado por ressonância magnética do encéfalo e da medula.

Quando a ressonância não é suficiente para fechar o diagnóstico, o neurologista pode solicitar a análise do líquido cefalorraquiano, em busca de um padrão chamado bandas oligoclonais, que indica atividade inflamatória própria do sistema nervoso central. Não existe um exame de sangue isolado capaz de confirmar a esclerose múltipla; o diagnóstico é sempre clínico e de imagem, construído em conjunto pelo neurologista.

Quais são as formas da esclerose múltipla?

A classificação mais usada no Brasil, adotada pela Academia Brasileira de Neurologia, divide a doença em quatro formas evolutivas. Cada uma tem um padrão diferente de surtos e de progressão da incapacidade, o que influencia diretamente a escolha do tratamento medicamentoso e os objetivos da reabilitação.

FormaPadrão de evolução
Remitente-recorrenteSurtos com sintomas novos ou piora de sintomas antigos, seguidos de recuperação parcial ou completa. É a forma mais comum no início da doença.
Secundariamente progressivaComeça como remitente-recorrente e, ao longo dos anos, passa a apresentar piora contínua entre os surtos.
Primariamente progressivaPiora gradual e contínua desde o início, sem surtos bem definidos.
Progressiva com surtosPiora contínua desde o início, com surtos ocasionais sobrepostos.

Esclerose múltipla é hereditária, passa para os filhos?

A esclerose múltipla não segue um padrão de herança genética direta, como ocorre em algumas doenças hereditárias. Ter um parente com a doença aumenta ligeiramente o risco, mas a grande maioria das pessoas com esclerose múltipla não tem histórico familiar da doença. Fatores ambientais, como exposição solar reduzida, níveis de vitamina D e infecções virais na infância, também parecem influenciar o risco, ao lado da predisposição genética.

Pessoa com esclerose múltipla pode ter uma vida normal?

Com acompanhamento médico regular e tratamento adequado, muitas pessoas com esclerose múltipla mantêm trabalho, estudos, relações familiares e atividades de lazer. O impacto funcional varia muito de pessoa para pessoa, e depende da forma da doença, da resposta ao tratamento e do tempo de diagnóstico. Evitar promessas de resultado e ao mesmo tempo evitar catastrofizar o futuro é o equilíbrio que buscamos ao conversar com cada família que chega até nós.

Qual é o papel da fisioterapia na esclerose múltipla?

A fisioterapia atua como coadjuvante do tratamento medicamentoso, com foco em função, equilíbrio, força e qualidade de vida, nunca como substituta do acompanhamento neurológico. Uma revisão sistemática da Cochrane Library, que reuniu nove ensaios clínicos randomizados, encontrou evidência forte a favor do exercício terapêutico para força muscular, capacidade de exercício e mobilidade em pessoas com esclerose múltipla, além de evidência moderada para melhora do humor. Não foi encontrada evidência de efeitos prejudiciais do exercício nos estudos avaliados.

É importante ser honesto quanto aos limites dessa evidência: a mesma revisão não encontrou benefício claro do exercício terapêutico sobre a fadiga nem sobre a percepção de incapacidade quando comparado à ausência de exercício, e reconheceu a necessidade de um conjunto padronizado de medidas de resultado para comparar diferentes protocolos. O exercício orientado é seguro e traz benefícios documentados, mas não é um recurso isolado capaz de resolver todos os sintomas da doença.

Entre as estratégias fisioterapêuticas mais utilizadas estão:

  • treino de equilíbrio e prevenção de quedas;
  • fortalecimento muscular progressivo;
  • treino de marcha e de transferências;
  • reabilitação vestibular, quando há tontura ou instabilidade;
  • orientação de conservação de energia para o manejo da fadiga;
  • fisioterapia respiratória, em casos com envolvimento da musculatura ventilatória.

E a fadiga? Por que ela é tão difícil de tratar?

A fadiga é um dos sintomas mais relatados na esclerose múltipla e, para boa parte das pessoas, é o sintoma mais incapacitante do dia a dia. Ela pode ter origem diretamente na doença (fadiga primária, ligada à própria atividade inflamatória e à demanda extra que o sistema nervoso passa a ter) ou ser secundária a outros fatores, como distúrbios do sono, ansiedade, depressão, anemia ou alterações da tireoide.

Por isso, a avaliação da fadiga sempre começa pela investigação das causas secundárias, antes de tratar a fadiga como sintoma isolado da doença. O manejo costuma envolver equipe multidisciplinar: neurologista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e, quando necessário, psicólogo, cada um contribuindo com uma parte da estratégia.

Orientações para a família e para o ambiente de casa

Você não precisa reformar a casa inteira nem comprar equipamentos especializados para começar a ajudar. Pequenos ajustes já fazem diferença na segurança e na autonomia do dia a dia:

  • retire tapetes soltos e fios espalhados pelo chão, principais causas de quedas em casa;
  • garanta boa iluminação em corredores e escadas, especialmente à noite;
  • instale barras de apoio no banheiro, perto do vaso sanitário e dentro do box;
  • prefira cadeiras e sofás com altura adequada, mais fáceis de levantar sozinho;
  • organize os itens de uso diário em altura acessível, evitando que a pessoa precise se abaixar ou esticar demais o corpo;
  • observe e anote os horários de maior fadiga, para planejar as atividades mais exigentes para os momentos de mais energia.

Nenhuma dessas mudanças precisa acontecer de uma vez. Priorize o que resolve o maior risco no momento, geralmente relacionado a quedas, e vá ajustando o restante aos poucos, junto com a equipe de fisioterapia.


Atendimento individualizado e consulta on-line

Cada pessoa com esclerose múltipla vive a doença de um jeito diferente, e por isso a avaliação fisioterapêutica na Clínica MoviMente é sempre individualizada, considerando a forma da doença, o histórico de surtos, os sintomas atuais e os objetivos da própria pessoa e da família.

Para famílias que não estão em Campinas, oferecemos consulta de orientação on-line para todo o Brasil, com avaliação funcional à distância e encaminhamento de um plano de conduta que pode ser executado junto à equipe local de fisioterapia da pessoa. Trabalhamos em rede com neurologistas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado.


Perguntas frequentes

Esclerose múltipla é uma doença grave?

A gravidade varia muito de pessoa para pessoa e depende da forma da doença, da frequência dos surtos e da resposta ao tratamento. Muitas pessoas mantêm uma vida ativa e funcional por décadas após o diagnóstico, principalmente quando o tratamento é iniciado cedo e o acompanhamento é regular.

Qual a diferença entre surto e progressão da esclerose múltipla?

O surto é o aparecimento de sintomas neurológicos novos, ou a piora clara de sintomas antigos, que dura pelo menos 24 horas e não está ligado a febre ou infecção. A progressão é a piora gradual e contínua da incapacidade ao longo do tempo, independentemente da presença de surtos.

Estresse pode causar um surto de esclerose múltipla?

A relação entre estresse e surtos ainda é estudada, e os resultados de pesquisa não são conclusivos o suficiente para afirmar uma relação de causa direta. De qualquer forma, cuidar da saúde emocional e do sono costuma ajudar no bem-estar geral de quem convive com a doença.

A pessoa com esclerose múltipla pode fazer exercício físico?

Pode, e a prática regular de exercício orientado está associada a ganhos de força, mobilidade e equilíbrio, segundo revisões da literatura científica. A intensidade e o tipo de exercício devem ser definidos junto ao fisioterapeuta, considerando a fase da doença e os sintomas de cada pessoa.

Esclerose múltipla afeta apenas os movimentos do corpo?

Não. Além dos sintomas motores, a doença pode afetar visão, sensibilidade, equilíbrio, controle de bexiga e intestino, cognição e humor, dependendo de onde estão as lesões no sistema nervoso central.

Quando começar a fisioterapia após o diagnóstico?

Não existe um prazo fixo, mas o início precoce da fisioterapia tende a favorecer a manutenção da função e da autonomia, além de ajudar a pessoa a entender melhor os próprios limites e possibilidades desde o começo do tratamento. O momento ideal deve ser discutido com o neurologista responsável.

A gestação é possível para mulheres com esclerose múltipla?

Sim, a gestação é possível e deve ser planejada em conjunto com o neurologista, já que alguns medicamentos usados no tratamento precisam ser ajustados ou suspensos antes da concepção. Não há evidência de efeito prejudicial de todos os imunomoduladores durante a gestação, mas cada caso exige avaliação específica.


Referências

  1. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla — Ministério da Saúde. gov.br/saude
  2. Diretrizes para o Tratamento da Esclerose Múltipla com Drogas Imunomoduladoras — Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2005.
  3. Rietberg MB, Brooks D, Uitdehaag BMJ, Kwakkel G. Exercise therapy for multiple sclerosis. Cochrane Database of Systematic Reviews. doi.org/10.1002/14651858.CD003980.pub2
  4. Johnson E, Hooshmand SJ, Hooshmand SI. Fatigue in Multiple Sclerosis: A Comprehensive Approach to Evaluation and Management. Practical Neurology, jan./fev. 2024.
  5. Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM). abem.org.br
  6. National Multiple Sclerosis Society — What is MS. nationalmssociety.org

Conteúdo informativo, elaborado por fisioterapeutas, sem finalidade de diagnóstico e sem substituir a avaliação profissional individual. Cada caso exige avaliação específica.

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