Assoalho pélvico · Incontinência

Fisioterapia para incontinência urinária e fecal

Por que o vazamento acontece, o que a reeducação neuromuscular do assoalho pélvico consegue mudar e quanto tempo costuma levar — para quem convive com isso e nunca comentou com ninguém.

Em resumo
  • O vazamento acontece quando os músculos do assoalho pélvico perdem força, coordenação ou velocidade de resposta — e esse é um mecanismo muscular e neural, que responde a treino.
  • Existem três apresentações principais (de esforço, de urgência e mista), e reconhecer qual delas está em jogo muda o treino inteiro.
  • A revisão da Cochrane sobre treino do assoalho pélvico em mulheres mostra taxas de cura ou melhora bastante superiores às dos grupos sem tratamento, com programas em geral de 8 a 12 semanas.
  • O trabalho vai além de apertar o músculo: envolve reconhecer, contrair no momento certo, relaxar e progredir até a resposta automática.
  • A avaliação é feita em sala fechada, explicada passo a passo, e qualquer etapa do exame pode ser recusada.

A vida passa a se organizar em torno de onde tem banheiro. O absorvente virou rotina. Sair de casa exige um planejamento que ninguém mais percebe, mas que ocupa a cabeça inteira. Os convites foram ficando mais raros, e boa parte deles você mesma recusou.

Se você chegou até aqui procurando o que fazer, já passou da parte mais difícil, que é parar de aceitar a explicação de que isso é da idade e pronto. A fisioterapia para incontinência urinária trabalha justamente o que costuma estar por trás do vazamento: a força e a coordenação dos músculos do assoalho pélvico. É um trabalho de reeducação neuromuscular, feito com exercício orientado e acompanhamento.

Nós somos fisioterapeutas e conversamos sobre isso várias vezes por semana no consultório. Você não é a única pessoa que atravessa isso, ainda que quase ninguém comente.

Por que o vazamento acontece?

O assoalho pélvico é um grupo de músculos que sustenta a bexiga, o intestino e, nas mulheres, o útero. Ele precisa dar conta de duas tarefas diferentes: sustentar essas estruturas ao longo do dia inteiro e produzir uma contração rápida no instante em que a pressão dentro do abdome aumenta. É essa contração rápida que segura a urina quando você ri, tosse, espirra ou levanta peso.

Quando esses músculos perdem força, perdem coordenação ou ficam lentos para responder, a contração chega atrasada. O vazamento acontece nesse intervalo.

Vários caminhos levam a essa perda: as gestações e os partos, sobretudo os partos com laceração ou fórceps; o envelhecimento; o tempo prolongado de inatividade; a tosse crônica; a prisão de ventre; o ganho importante de peso; as lesões neurológicas; as cirurgias na região, como a de próstata; e o efeito de algumas medicações. O mecanismo final é o mesmo em todos eles, e é um mecanismo muscular e neural. Por isso responde a treino.

Quais tipos de incontinência a fisioterapia consegue modificar?

São três apresentações principais, e reconhecer qual delas está em jogo muda o treino inteiro.

TipoQuando o vazamento apareceO que o treino trabalha
De esforçoNa tosse, no espirro, no riso, no exercício, ao levantar peso.A força e a velocidade de resposta do assoalho pélvico, coordenadas com a pressão abdominal.
De urgênciaAntes de chegar ao banheiro, mesmo com a bexiga pouco cheia.A reeducação do reflexo da bexiga e as técnicas de inibição da urgência.
MistaNas duas situações.Os dois trabalhos, com a prioridade definida pela avaliação.

Nós trabalhamos principalmente a incontinência de esforço e o componente de esforço da incontinência mista, que é onde a literatura de fisioterapia é mais consistente. A avaliação individual é o que define qual caminho tende a funcionar melhor no seu caso. Não há como responder isso por telefone nem por artigo.

Por que começar cedo faz diferença?

Duas razões, e nenhuma delas é abstrata.

A primeira é a neuroplasticidade. O circuito que dispara o comando para o assoalho pélvico está há muito tempo sem ser usado. Quando você volta a estimular esse circuito com exercício orientado, ele volta a responder, e quanto menor o tempo de desuso, mais rápido costuma ser esse reaprendizado.

A segunda é o custo do tempo parado. Músculo que não trabalha atrofia. A constipação e a tosse que ninguém tratou continuam empurrando a pressão para baixo todos os dias. O condicionamento geral cai junto. Cada mês de espera acrescenta trabalho à reabilitação que virá depois.

Você não precisa esperar piorar para procurar a fisioterapia. A fisioterapia faz parte do melhorar.

O que a reeducação neuromuscular faz de verdade?

O trabalho vai além de apertar o músculo com força. Ele ensina o corpo a reconhecer onde está o assoalho pélvico, a contrair no momento certo e a relaxar depois. O relaxamento importa tanto quanto a contração, porque um assoalho pélvico permanentemente tenso também falha, e falha de um jeito que costuma ser confundido com fraqueza.

Um programa completo costuma incluir:

  • a avaliação com palpação, para medir a força real, a resistência e o padrão respiratório que você usa hoje;
  • os exercícios em posições progressivas, começando deitada, porque é mais fácil, e avançando para sentada e em pé, que é onde a vida acontece;
  • o treino dinâmico, ou seja, praticar a contração rápida enquanto você levanta da cadeira, caminha, carrega a compra ou tosse de propósito;
  • a reeducação da respiração, porque muita gente prende o ar para contrair, o que aumenta a pressão sobre a bexiga em vez de aliviá-la.

Quando o treino avança, o assoalho pélvico volta a responder sozinho, sem que você precise lembrar dele. É o mesmo tipo de aprendizado motor que faz sua mão se fechar sobre o copo que escorrega, antes de você pensar.

Quanto tempo leva para melhorar?

Esta é a pergunta que mais recebemos, e a resposta honesta tem duas partes.

A revisão sistemática da Cochrane sobre treino dos músculos do assoalho pélvico para incontinência urinária em mulheres, coordenada por Chantale Dumoulin, reúne os ensaios clínicos disponíveis e conclui que as mulheres que treinam de forma orientada relatam cura ou melhora com frequência bastante superior à dos grupos sem tratamento, com os programas estudados variando em geral entre 8 e 12 semanas. Os próprios autores registram que a certeza da evidência varia entre os desfechos e que os protocolos são heterogêneos entre os estudos. Isso quer dizer que a direção do efeito está bem estabelecida, e o tamanho exato do efeito para uma pessoa específica não está.

Na prática clínica, os fatores que mais pesam no ritmo são o tempo de evolução do problema, a presença de lesão neurológica, a existência de constipação ou tosse crônica ainda sem tratamento, e a regularidade com que você faz os exercícios em casa. O exercício feito três vezes por semana em casa costuma render mais do que a sessão semanal isolada no consultório.

Nos quadros ligados a doenças neurológicas progressivas, como a doença de Parkinson, o objetivo muda. O trabalho passa a ser preservar o controle pelo maior tempo possível e organizar estratégias práticas para os períodos de vazamento. Vale dizer isso com clareza em vez de prometer o que a doença não permite.

Em qualquer cenário, o alvo realista se mede em autonomia. Sair de casa sem calcular banheiros, atravessar o dia com uma troca de roupa, dormir a noite. Muita gente chega nesse patamar.

Por que a incontinência afeta tanto o humor e a vida social?

Porque ela mexe com previsibilidade. Você não sabe quando vai acontecer, e essa incerteza cobra atenção o dia inteiro. Some a isso a vergonha de comentar, inclusive com médico, e o assunto vira segredo.

O que observamos no consultório é um ciclo bastante consistente. A pessoa reduz as saídas, reduz o convívio e reduz a atividade física, e a queda de atividade piora a própria musculatura que sustenta a continência. A literatura de saúde pública descreve há tempo a associação entre incontinência e sintomas depressivos em adultos mais velhos, ainda que a direção da causa seja discutida.

Quando o treino começa a render, o vazamento é a parte mais visível da mudança, e não é a única. Volta o cálculo mental que sobrava para outras coisas. Volta o convite aceito sem calcular a logística.

Vale a pena tratar ou é melhor se adaptar?

Existe quem escolha a adaptação, com absorvente de uso contínuo e uma rotina construída em torno do problema. Em algumas situações essa é a escolha adequada, e há causas que a fisioterapia não modifica.

Para a maior parte dos quadros de esforço, de urgência e pós-cirúrgicos, porém, a musculatura ainda responde ao estímulo. A pergunta prática é se vale investir alguns meses de treino orientado agora para reduzir a chance de conviver com o problema por décadas. Quem faz essa conta costuma decidir rápido.

A avaliação existe justamente para dizer em qual dos dois grupos o seu caso se encaixa, antes de você decidir qualquer coisa.

Como quem cuida pode ajudar em casa?

Se você acompanha alguém com incontinência, seu papel está em preparar o ambiente e preservar a independência da pessoa. A linha entre ajudar e substituir é fina, e vale prestar atenção nela.

O que costuma ajudar
  • o caminho até o banheiro livre e iluminado, com o percurso desimpedido à noite, porque boa parte dos episódios acontece na pressa e no escuro;
  • as roupas de manejo simples, com elástico no lugar de botão, que reduzem o tempo entre chegar e conseguir;
  • os protetores de colchão, tratados como item de casa e sem comentário a cada troca;
  • a pergunta feita diretamente, sobre o que a pessoa quer que você faça e o que prefere resolver sozinha.

O que costuma atrapalhar é a vigilância. Perguntar toda hora se está tudo bem, comentar cada episódio e reorganizar a vida da família em torno do assunto aumenta a vergonha e acelera o isolamento.

A sobrecarga de quem cuida é um problema clínico por si só. Se ela está pesando, traga isso para a avaliação, porque faz parte do quadro.

Como funciona o atendimento e a privacidade?

Marcar a primeira consulta constrange, e faz sentido que constranja. Então vale dizer com todas as letras: este é um motivo de consulta rotineiro no nosso dia a dia, conduzido com o mesmo profissionalismo de qualquer outro.

A avaliação inicial leva cerca de 60 minutos, em sala fechada. A conversa cobre quando começou, em que situações acontece, o que já foi tentado, a saúde geral e as medicações em uso. A avaliação física pode incluir palpação vaginal ou anal, com luva, explicada passo a passo, e feita apenas com o seu consentimento a cada etapa. Você pode recusar qualquer parte do exame e ainda assim sair com um plano.

Depois, você se veste e conversamos sobre o plano de tratamento.

Nas sessões seguintes, você aprende os exercícios, executa em casa sem equipamento e volta para ajuste e progressão de carga. O prontuário é sigiloso e ninguém do seu convívio precisa saber de nada.

Quais exercícios funcionam?

O que muda o resultado é a qualidade da contração, o ritmo e a progressão, e não o número de repetições. Um programa costuma combinar três estímulos diferentes:

  • as contrações rápidas, que treinam a resposta imediata, que é a que falta na hora do espirro;
  • as contrações sustentadas, que constroem a resistência para o dia inteiro;
  • o relaxamento consciente, que devolve ao músculo a capacidade de soltar.

A progressão sai da posição deitada, passa para sentada e chega em pé. Depois entra na atividade: caminhar, subir escada, levantar peso.

A conquista final é automática. O comando dispara sem que você pense nele, que é exatamente o que acontecia antes do problema começar.


Cada pessoa é única

Nenhum artigo substitui uma avaliação. As particularidades que definem a conduta aparecem no exame e na conversa, e variam bastante de uma pessoa para outra.

Fazemos consultas on-line para todo o Brasil, e elas entregam:

  • o entendimento do seu quadro;
  • a explicação em linguagem clara do que está acontecendo;
  • a orientação de hábitos, de posicionamento e de adaptações em casa;
  • a organização das prioridades e dos objetivos;
  • a orientação para conduzir a reabilitação com a equipe local, quando existe uma.

O atendimento presencial acontece em Campinas e região. A palpação exige presença, e por isso a consulta on-line costuma funcionar melhor combinada com uma avaliação presencial, aqui ou com a fisioterapeuta que acompanha você aí.

Se o vazamento está mudando a forma como você organiza o seu dia, uma avaliação resolve a primeira pergunta, que é entender o que está acontecendo e o que dá para fazer. Você não precisa ter todas as respostas antes de procurar ajuda.


Perguntas frequentes

Perder urina é normal com a idade?

Fica mais frequente com a idade, e isso está longe de significar que não tem tratamento. Ganho de força muscular acontece aos 60, aos 70 e aos 80 anos, mais devagar do que aos 30, e acontece. O que não é esperado é organizar a vida em função do vazamento.

Já fiz exercício de Kegel por conta própria e não adiantou. Por quê?

O motivo mais comum é contrair o músculo errado. Muita gente aperta glúteo, adutor ou abdome, prende a respiração e faz força para baixo, o que empurra a bexiga em vez de sustentá-la. A avaliação identifica o padrão que você usa hoje e corrige antes de começar a treinar carga.

Incontinência de causa neurológica tem tratamento?

Tem tratamento fisioterapêutico, com objetivo de preservar função e organizar estratégias práticas. Quando a doença de base é progressiva, o trabalho não reverte a progressão, e ainda assim costuma ampliar o tempo de autonomia.

Vou precisar de cirurgia?

A conduta habitual coloca o tratamento conservador antes, e a decisão sobre cirurgia é do médico urologista ou ginecologista. Trabalhamos em rede com esses profissionais, tanto nos casos que seguem só com fisioterapia quanto naqueles que precisam de avaliação cirúrgica.

Quantas sessões são necessárias?

Varia. Alguns quadros respondem em poucas semanas de treino bem feito, outros levam alguns meses, e parte das pessoas mantém uma frequência espaçada depois da alta. O número sai da reavaliação, e não do primeiro atendimento.

Se eu parar de treinar, o vazamento volta?

O ganho não some de um dia para o outro, e músculo sem estímulo perde força como qualquer outro. Por isso a alta inclui um programa curto de manutenção em casa, para você seguir sozinha.

Homem operado da próstata também faz esse tratamento?

Sim, e o treino do assoalho pélvico é parte usual da reabilitação após a prostatectomia. A conduta segue o mesmo raciocínio de força, coordenação e resposta rápida, com progressão adaptada ao pós-operatório.


Referências

  1. Dumoulin C, Cacciari LP, Hay-Smith EJC. Pelvic floor muscle training versus no treatment, or inactive control treatments, for urinary incontinence in women. Cochrane Database of Systematic Reviews. doi.org/10.1002/14651858.CD005654.pub4

Conteúdo informativo, elaborado por fisioterapeutas, sem finalidade de diagnóstico e sem substituir a avaliação profissional individual. Cada caso exige avaliação específica.

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